quinta-feira, 15 de maio de 2014

Projeto europeu traz canções de ninar do mundo inteiro

FONTE: http://culturafm.cmais.com.br/cd-da-semana/cancoes-de-ninar-do-mundo-inteiro
ATENÇÃO: No link acima dá para escutar todas as músicas do CD. Yiuki

O objetivo de 'Lullabies of the World' é compilar uma antologia das mais belas canções de ninar internacionais em CD e portal com partituras

ocê sabia que existem muitas semelhanças estruturais, melódicas, rítmicas e harmônicas entre as canções de ninar espalhadas pelo mundo, do Japão a Portugal, da Grécia à Turquia e à Índia? É claro que, além do exotismo que as separa naturalmente pela instrumentação e as línguas muito diversas entre si, a maneira de cantar também é diferente. Em algumas culturas, escreve Inge Cordes em ótimo  texto no encarte, a voz soa anasalada. Há diferenças nas escalas em que as canções se baseiam. "Em muitos casos, a ordem dos tons e semitons não corresponde às escalas maior e menor convencionais da música europeia". A música do leste asiático, da África e do sul do Pacífico, por exemplo, é baseada em escalas pentatônicas, ou seja, de cinco notas. Usam-se até intervalos de quarto de tom, característica da música oriental que também apresenta uma rica ornamentação. "Nas ilhas Solomon e na Nova Guiné, canções de ninar só são permitadas às mulheres".

"Sabemos", escreve Inge Cordes, "que há uma intensa comunicação vocal entre os pais e seus filhos muito pequenos que ainda não sabem falar". Quase intuitivamente, os pais produzem murmúrios e sons que parecem estranhos e sem sentido para terceiros, mas que os bebês captam e reagem a eles. Cordes diz coisas muito interessantes sobre a relação pais-filhos na comunicação pré-linguística: "Os pais falam cada mais vez agudo e produzem gestos vocais e certos contornos melódicos com mensagens emocionais para os bebês. Um intervalo de terça descendente, por exemplo, como o do cuco, é usado para chamar a atenção da criança; um contorno melódico ascendente a convida para brincar. Desenhos melódicos descendentes são usados para acalmar o bebê quando eufórico e excitado".

Tudo isso aparece na maior parte das canções de ninar de todas as latitudes do planeta. É o que oferece um projeto interessantíssimo chamado VOICE - Visão inovadora para  a música coral na Europa, idealizado pela Associação Coral Europeia, a Europa Cantat, em cooperação com a gravadora e editora alemã Carus. A ideia original é disponibilizar a quem se interessar as canções de ninar dos países do Velho Continente e dos imigrantes que lá estão radicados. Em português, só uma canção, de Portugal. Pelo volume de brasileiros radicados na Europa, mereceríamos sem dúvida estar presentes na antologia. Quem sabe num segundo CD...
Canções de Ninar do Mundo Inteiro acaba de ser lançado no mercado internacional pela Carus. É uma daquelas fascinantes aventuras que todos devem compartilhar: pais e mães pela emoção de perceber como há pontos comuns no modo como as canções de ninar embalam o sono e os sonhos dos pequenos; e também quem não tem filhos com certeza também vai se emocionar.
No mundo inteiro, milhões de mães, pais e avós colocam suas crianças para dormir por meio do ritual de canções que tranquilizam os bebês e crianças pequenas. O costume existiu em todas as culturas, desde os primórdios da humanidade. E, ao que tudo indica, é uma das marcas humanas fundamentais o gesto de acalentar os filhos até que peguem no sono, dando-lhes o duplo sentimento de segurança e profundo afeto.

O objetivo do projeto que agora virou CD é compilar uma antologia das mais belas canções de ninar internacionais. O folheto que acompanha o CD – no caso do download, é um booklet digital – contém flagrantes belíssimos de grandes fotógrafos como Steve McCurry, além de um ensaio consistente sobre o tema e todas as letras das canções na língua original e em traduções para o alemão e o inglês. Todas as canções são oferecidas em partituras, reproduções sonoras e guia de pronúncia no site lullabiesoftheworld.org.

Faixas:
1. Baju, bajuschki, baju - Rússia
2. Fais dodo - França
3. Hine e hine - Nova Zelândia
4. All the pretty little horses - América do Norte
5. Aija, žužu - Letônia
6. Yalla tnam Rima - Líbano
7. Csija buja - Hungria
8. Guten Abend, gut Nacht - Alemanha
9. Nani tou riga to pedi - Grécia
10. Dandini dandini dastana - Turquia
11. Thula baba - África do Sul
12. Itsuki no Komori-uta - Japão
13. Jasoda Hari palne - Índia
14. Gjendines badnlat - Noruega
15. Dorme, dorme, meu menino - Portugal
16. Hraju na Maru - Morávia
17. Akna Oror - Armênia
18. Dal a, dal a - Coreia
19. Der Mond ist aufgegangen - Alemanha
20. Arrorro - Espanha / Ilhas Canárias
21. Fate la nanna coscine di pollo - Itália
22. Tuu, tuu, tupakkarulla - Finlândia
23. Shlof main fegele - Israel
24. Slaap, kindje slap - Bélgica
25. Yue er ming - China
Onde comprar:

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Sankai Juku Umusuna - Memórias antes da história

Vídeo indicado pelo DAN!
Possui relação com a temática do solo. Valeu!
Yiuki

Ushio Amagatsu, diretor, coreógrafo e designer do grupo japonês Sankai Juku, fala sobre sua arte e sobre o espetáculo Umusuna – Memórias antes da história, que ele concebeu em 2012.

LINK DO VÍDEO: clicar aqui.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

REAÇÃO DE UMA MENINA AO VER A CHUVA PELA PRIMEIRA VEZ

http://www.furavideos.com/reacao-de-uma-menina-ao-ver-a-chuva-pela-primeira-vez/

Acessar memórias….

Entendo que acessar emoções abre espaço para criação. Abaixo são cartas afetivas pessoais, mais do que algo que se refere diretamente à pesquisa temática do solo. Inclusive, lembrei a Patrícia Selonk do Grupo Armazem comentando que fazer um exercício de toque no início do laboratório de criação às vezes melhora o resultado.  Onde ficam as memórias afetivas no nosso corpo? Como resgata os estados corporais? São questões que me instigam. Yiuki

 

D4Y – textos


carta de embalar

(em resposta à música "O Barquinho")


dear,

um barco de papel. envio esta carta com as marcas das dobras que farão dela um frágil barco de papel, como neste em que me vejo a enviar notícias. As responsabilidades na empresa aumentaram, os grevistas falam em paralisação total, os acionistas em demissão em massa e, eu?, eu desconverso dizendo que estão sendo desenvolvidos estudos técnicos quanto ao que pode ser concedido sem prejudicar a produção mínima necessária à manutenção do faturamento médio. minhas roupas estão apertadas e a camisa vinho que tia Margaret enviou descoloriu. você achou meu sapato de verniz no closet do quarto de visitas como lhe pedi?

o trânsito aqui é infernal, pára-se por qualquer coisa. você acredita que um taxista resolveu descer do veículo porque reconhecera a imagem de seu avô em um bulldog castanho claro que passeava disperso com sua dona de 80 anos? pois é, yeeh, o congestionamento foi de 9 quilômetros. sorte nossa que o bulldog se ofendeu com o excesso de intimidade que o taxista se deu ao tentar abraçá-lo e enxotou o infeliz para seu devido lugar. a fila daria a volta ao mundo a essa hora.

dobre na seqüencia que anotei nos cantos da folha. as letras "F" e "D" diferenciam as dobras para fora das dobras para dentro.

fiz tudo de errado quando cheguei, mas já estou preparado para a próxima. a mão inglesa aqui existe! mas só entre as 2 e as 4 da madrugada. dizem que é coisa do álcool, mas é tão pontual a troca de mão que até parei com os porres noturnos para apreciar melhor a coreografia. envia pelo Jonh uma atadura de algodão da farmácia, aquela em frente a praça, as que eu comprei aqui me dão coceira. não se preocupe, não foi nada de grave.

lembrei da música que você cantava pra mim nas noites de insonia

.

anoto abaixo minha nova versão da letra. já imagino você cantando enquanto faz ondas para nosso barquinho tremular na banheira (use a do andar de cima, gasta menos água).

...
durma, cariño, durma e me tome em sonhos como lhe tenho agora nos braços. durma, cariño, durma. braços feito a traço, mas ainda abraços. durma, cariño, durma. a essa hora até os monstros encontram morpheus e com ele fazem valsa. durma, cariño, durma. não é porque estou prestes a chegar que você precisa arrumar a casa e vestir-se em festa. durma, cariño, durma. para entrar no mundo dos sonhos, a condição é esta. durma, cariño, durma. deixe um mar anil espalhar-se além do cais. durma, cariño, durma. é feita de nuvens sua cama. durma, cariño, durma. para não cair na água acompanhe o balanço. durma, cariño, durma. que seja o seu tronco música. durma, cariño, durma. seu abrir e fechar de olhos, compasso. durma, cariño, durma. é seu peso sobre meu colo que me dá descanso. durma, cariño, durma. lanço-me logo atrás, olhos abertos debaixo d'água.
.: oberdan piantino
(17ª das cartas de edward para hopper, proposta literária
imagem de edward hopper, "ground swell", 1939).

 


carta que a água leva

(em repercussão à postagem sobre o barquinho de bumbu: 笹舟 Sasabune)


cariño,

acordei náufrago em uma casa abarrotada de gente por todos os lados. não, não me senti sozinho. eu dormira sabendo que ao recolher os colchões, as toalhas e os pratos eu não encontraria neles nem marcas, nem cheiro, nem restos seus. sim, pareço um gerente de pousada e estou feliz com este emprego temporário. tem sido divertido procurar algo de você nas visitas: aqui o mesmo riso tímido acompanhado de um olhar cúmplice, ali o mesmo penteado em perfeito e parcial desequilíbrio, acolá o mesmo comentário mordaz bem sussurrado, por perto o mesmo leve roçar de braços e por vezes a mesma cumplicidade instantânea. a deriva nestas imagens atravessei o ano. não tentei remar, não fiz questão de chegar e nunca estive tão longe do desespero, da ansiedade ou do saudosismo, simplesmente aconteceu: ao atravessar o portão da garagem fui atingido por novos ventos do leste, aqueles ainda puros, sem cheiro de pólvora ou estampidos. perdón, não tive tempo para pensar em nós e isso devo a este oceano de humanidade que me cerca. não é também um oceano o que leva minha carta até você? e que outro motivo me levaria a escrever senão a distância?
assim que eu terminar a carta, e após esboçar outra idéia de gravura, irei levá-la para ser lançada ao mar. abrirei a porta, e após sentar sobre a soleira da entrada, que diferente de seus degraus ainda está fora d'água, buscarei entre as garrafas estacionadas uma com a aerodinâmica perfeita da saudade. a vontade de ser lido me faz pensar em carregá-la a nado até a praia de onde você me escreve no repouso de um lençol de areia, mas há o mito. minha irmã diz que enxerga em mim a fênix, por isso tenho medo de apagar as chamas que arrepiam minha pele se eu vier a mergulhar com muita sede em águas que temo serem profundas. carta que a água leva, carinho que a água trás.


.: oberdan porto leal piantino
(carta-desafio baseada ​em vários projeto​s​ epistolográficos
imagem de Edward Hopper: "Rooms by the Sea", 1951)