quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Acessar memórias….

Entendo que acessar emoções abre espaço para criação. Abaixo são cartas afetivas pessoais, mais do que algo que se refere diretamente à pesquisa temática do solo. Inclusive, lembrei a Patrícia Selonk do Grupo Armazem comentando que fazer um exercício de toque no início do laboratório de criação às vezes melhora o resultado.  Onde ficam as memórias afetivas no nosso corpo? Como resgata os estados corporais? São questões que me instigam. Yiuki

 

D4Y – textos


carta de embalar

(em resposta à música "O Barquinho")


dear,

um barco de papel. envio esta carta com as marcas das dobras que farão dela um frágil barco de papel, como neste em que me vejo a enviar notícias. As responsabilidades na empresa aumentaram, os grevistas falam em paralisação total, os acionistas em demissão em massa e, eu?, eu desconverso dizendo que estão sendo desenvolvidos estudos técnicos quanto ao que pode ser concedido sem prejudicar a produção mínima necessária à manutenção do faturamento médio. minhas roupas estão apertadas e a camisa vinho que tia Margaret enviou descoloriu. você achou meu sapato de verniz no closet do quarto de visitas como lhe pedi?

o trânsito aqui é infernal, pára-se por qualquer coisa. você acredita que um taxista resolveu descer do veículo porque reconhecera a imagem de seu avô em um bulldog castanho claro que passeava disperso com sua dona de 80 anos? pois é, yeeh, o congestionamento foi de 9 quilômetros. sorte nossa que o bulldog se ofendeu com o excesso de intimidade que o taxista se deu ao tentar abraçá-lo e enxotou o infeliz para seu devido lugar. a fila daria a volta ao mundo a essa hora.

dobre na seqüencia que anotei nos cantos da folha. as letras "F" e "D" diferenciam as dobras para fora das dobras para dentro.

fiz tudo de errado quando cheguei, mas já estou preparado para a próxima. a mão inglesa aqui existe! mas só entre as 2 e as 4 da madrugada. dizem que é coisa do álcool, mas é tão pontual a troca de mão que até parei com os porres noturnos para apreciar melhor a coreografia. envia pelo Jonh uma atadura de algodão da farmácia, aquela em frente a praça, as que eu comprei aqui me dão coceira. não se preocupe, não foi nada de grave.

lembrei da música que você cantava pra mim nas noites de insonia

.

anoto abaixo minha nova versão da letra. já imagino você cantando enquanto faz ondas para nosso barquinho tremular na banheira (use a do andar de cima, gasta menos água).

...
durma, cariño, durma e me tome em sonhos como lhe tenho agora nos braços. durma, cariño, durma. braços feito a traço, mas ainda abraços. durma, cariño, durma. a essa hora até os monstros encontram morpheus e com ele fazem valsa. durma, cariño, durma. não é porque estou prestes a chegar que você precisa arrumar a casa e vestir-se em festa. durma, cariño, durma. para entrar no mundo dos sonhos, a condição é esta. durma, cariño, durma. deixe um mar anil espalhar-se além do cais. durma, cariño, durma. é feita de nuvens sua cama. durma, cariño, durma. para não cair na água acompanhe o balanço. durma, cariño, durma. que seja o seu tronco música. durma, cariño, durma. seu abrir e fechar de olhos, compasso. durma, cariño, durma. é seu peso sobre meu colo que me dá descanso. durma, cariño, durma. lanço-me logo atrás, olhos abertos debaixo d'água.
.: oberdan piantino
(17ª das cartas de edward para hopper, proposta literária
imagem de edward hopper, "ground swell", 1939).

 


carta que a água leva

(em repercussão à postagem sobre o barquinho de bumbu: 笹舟 Sasabune)


cariño,

acordei náufrago em uma casa abarrotada de gente por todos os lados. não, não me senti sozinho. eu dormira sabendo que ao recolher os colchões, as toalhas e os pratos eu não encontraria neles nem marcas, nem cheiro, nem restos seus. sim, pareço um gerente de pousada e estou feliz com este emprego temporário. tem sido divertido procurar algo de você nas visitas: aqui o mesmo riso tímido acompanhado de um olhar cúmplice, ali o mesmo penteado em perfeito e parcial desequilíbrio, acolá o mesmo comentário mordaz bem sussurrado, por perto o mesmo leve roçar de braços e por vezes a mesma cumplicidade instantânea. a deriva nestas imagens atravessei o ano. não tentei remar, não fiz questão de chegar e nunca estive tão longe do desespero, da ansiedade ou do saudosismo, simplesmente aconteceu: ao atravessar o portão da garagem fui atingido por novos ventos do leste, aqueles ainda puros, sem cheiro de pólvora ou estampidos. perdón, não tive tempo para pensar em nós e isso devo a este oceano de humanidade que me cerca. não é também um oceano o que leva minha carta até você? e que outro motivo me levaria a escrever senão a distância?
assim que eu terminar a carta, e após esboçar outra idéia de gravura, irei levá-la para ser lançada ao mar. abrirei a porta, e após sentar sobre a soleira da entrada, que diferente de seus degraus ainda está fora d'água, buscarei entre as garrafas estacionadas uma com a aerodinâmica perfeita da saudade. a vontade de ser lido me faz pensar em carregá-la a nado até a praia de onde você me escreve no repouso de um lençol de areia, mas há o mito. minha irmã diz que enxerga em mim a fênix, por isso tenho medo de apagar as chamas que arrepiam minha pele se eu vier a mergulhar com muita sede em águas que temo serem profundas. carta que a água leva, carinho que a água trás.


.: oberdan porto leal piantino
(carta-desafio baseada ​em vários projeto​s​ epistolográficos
imagem de Edward Hopper: "Rooms by the Sea", 1951)


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